Posts Tagged 'lingüística'

Erro? O que é erro?

A definição de erro é um problema complexo, e não apenas uma questão de norma gramatical da língua escrita.  Pois bem, o modelo de língua da gramática normativa é baseado nos exemplos clássicos da literatura, e não no uso efetivo que os falantes fazem da língua.  Dessa forma, erro para a gramática normativa é todo uso lingüístico que foge desse modelo, desse padrão.  No entanto, se considerarmos os usos reais que os falantes fazem da língua em situações diversas, se considerarmos os diferentes modos de falar, veremos que a noção de erro da gramática normativa não se sustenta, pois não existe apenas a língua padrão.  Seria mais coerente se em vez de falarmos em certo e errado, falássemos em adequado e inadequado.  Determinadas formas de uso estão adequadas para determinados lugares e inadequadas para outros.  Quem está numa reunião de trabalho, certamente sabe que não é adequado falar com os colegas como se estivesse numa mesa de bar com os mesmos colegas.  Um professor na sala de aula faz um uso da língua diferente daquele uso que faz quando está em casa com a família.  Numa entrevista de emprego, é preciso que a pessoa seja clara e objetiva, pois se sabe que a forma como a língua é utilizada passa uma imagem positiva ou negativa do falante.
Por tudo isso, parece complicado julgarmos alguém por falar errado, pois quando fazemos um julgamento desse tipo, estamos apenas levando em conta a noção de erro da gramática normativa.  No entanto, a língua viva vai muito além desse padrão. O importante é perceber o que é adequado e o que é inadequado para cada situação comunicativa.

Fontes: Dicionário Eletrônico Houaiss.
Por que (não) ensinar gramática na escola – Sírio Possenti.

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Falano, comeno, cantano

Talvez você já tenha ouvido alguém dizer cantano, falano e outras palavras similares.  Hoje mostraremos a você por que esse fenômeno lingüístico ocorre.  Acompanhe conosco!
Na Lingüística, esse processo é chamado de assimilação.  E o que é isso exatamente? A assimilação é um processo que consiste em transformar um encontro de consoantes em um único som, um único fonema.  É o que ocorre quando as pessoas na hora de falar palavras terminadas em gerúndio, como falando, comendo, cantando, assimilam o D e pronunciam a palavra apenas com o N, falano, comeno.  Esse processo é algo muito comum que acontece desde o latim até hoje.  É uma tendência muito viva na língua portuguesa falada no Brasil.  Até as pessoas mais escolarizadas em situações informais ou em uma fala um pouco mais acelerada costumam pronunciar os verbos no gerúndio com a terminação –no, no lugar da terminação –ndo.  Talvez você esteja se perguntando: mas por que isso ocorre? A explicação é simples: os sons n e d pertencem a uma família de consoantes que são chamadas dentais, sendo assim produzidas no mesmo local dentro da boca.  E é por esse motivo que poderão sofrer essa assimilação.  Agora quando alguém, ou mesmo você, pronunciar as palavras dessa forma, saberá compreender que essa diferença tem uma explicação e até mesmo um nome na lingüística.

Fontes: A língua de Eulália: novela sociolingüística – Marcos Bagno
Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki

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Trabaio? Não seria trabalho?

Abordaremos mais um fenômeno lingüístico, comparando palavras como trabalho e trabaio.
Muitas pessoas, principalmente as que vivem na área rural, usam uma variedade lingüística, isto é, uma forma de falar chamada de “caipira” . Essa é uma marca lingüística e cultural muito forte dessas pessoas, que pronunciam palavras como “trabaio”, “abeia”, “paia”, em lugar de “trabalho”, “abelha”, palha”. Esse fenômeno na Lingüística é chamado de palatização – a transformação do lh em i. Essa troca é uma tendência natural da língua dessas pessoas, que convivem com outras que também falam dessa maneira. Mesmo que esse modo diferente de falar, o “caipirês” é alvo de preconceito social, existe uma explicação simples para a troca do lh por i. A vogal i é muito mais fácil de ser pronunciada do que o lh, e por isso essa troca é tão freqüente. As pessoas acabam assimilando esse uso e nem percebem mais que ele é “diferente” dos outros. Outro fator determinante para essa troca é a facilidade de comunicação. Além dessa troca do lh por i, o “caipirês”, assim chamado, possui outros fenômenos sobre os quais falaremos num próximo programa.

Fonte: A Língua de Eulália – Marcos Bagno

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Frexa, ingrês? Qual o nome desse fenômeno?

Como havíamos comentado em nosso programa anterior, é muito comum a ocorrência de palavras como: Frecha, pranta, probrema, no falar de algumas pessoas. Vimos, também, que isso era comum no português antigo, utilizado inclusive pelo grande poeta Luís de Camões. Veja alguns de seus versos: “Doenças, frechas e trovões ardentes”
“Nas ilhas de Maldiva nasce a pranta”
Naquela época, porém, o poeta não era recriminado e muito menos caçoado por isso, pelo contrário. E o que ocorreu com essas palavras? Com o tempo, na tentativa de aproximar o português padrão do latim, essas palavras começaram a ser faladas com L. Porém, é importante entender que na realidade há uma explicação científica para esse fenômeno . A lingüística, que é a ciência que estuda os fenômenos relacionados com a fala, com o objetivo de descrevê-los sem ridicularizá-los, chama isso de rotacismo. Existe na língua portuguesa, uma tendência natural de transformar em R o L dos encontros consonantais. O rotacismo acontece em diversas regiões do Brasil, onde é muito comum essa troca.
Queremos, com esses esclarecimentos, mostrar que nem tudo o que ouvimos e que não está de acordo com a gramática normativa ou com a norma padrão da língua deve ser considerado erro ou, pior, ignorância de quem fala, afinal tudo pode ser explicado e compreendido cientificamente.

Fontes: A Língua de Eulália – Marcos Bagno
http://www.marcosbagno.com.br
http://www.tvcultura.com.br/aloescola

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Frexa, ingrês? Por que isso ocorre?

Freqüentemente ouvimos pessoas pronunciarem as palavras probrema, frecha, pranta e, na maioria das vezes, rimos dessas pessoas desqualificando sua fala, considerando-as ignorantes. Ou então pensamos, pobres coitados, não sabem português e falam tudo errado. Pois bem, para entendermos o fenômeno lingüístico presente nesses usos, analisemos outras palavras, consideradas certas pela nossa gramática normativa e pelo português padrão, veja : Igreja, praia, frouxo, escravo.
Se formos buscar a origem dessas palavras no latim e até mesmo em outras línguas, descobriremos algo muito interessante. Acompanhe conosco : Ecclesia virou igreja, plaga virou praia, sclavu virou escravo, fluxu virou frouxo. Todas essas palavras eram escritas com L que virou R no português padrão. Vejamos agora outras palavras: Frexa, ingrês, pranta, pruma. Se formos consultar a literatura, descobriremos que o grande Luís de Camões usava, em seus versos, exatamente essas palavras. Mas será que ninguém disse para ele que isso estava errado? Ou será que não estava? Na verdade, na época de Camões essas palavras eram escritas e pronunciadas exatamente dessa forma, porém poderiam, também ser pronunciadas com L, pois havia as duas formas e quem fosse utilizar essas palavras poderia escolher entre a forma com L ou com R. Provavelmente, hoje, essas palavras são escritas com L por convenção ou até por tentativa de aproximação com o latim, como sugere o lingüista e professor Marcos Bagno, para legitimar e dar status a essa forma de escrita.

Fontes: A Língua de Eulália – Marcos Bagno
http://www.marcosbagno.com.br
http://www.tvcultura.com.br/aloescola

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Lingüística

Já explicamos que a lingüística surgiu para mostrar que existem explicações fundamentadas, científicas, para certas variações de linguagem, que a gramática normativa trata como erro.  Pois bem, é importante saber, também, que uma das principais inovações introduzidas pela Lingüística foi atribuir à língua falada a importância que sempre lhe tinha sido negada pela Gramática Tradicional. A língua falada é a verdadeira língua natural, a língua que cada pessoa aprende com sua mãe, seu pai, irmãos, na sociedade etc . Essa sim é a língua viva em constante ebulição, em constante transformação.  A língua falada é um tesouro, em que se podem encontrar coisas muito antigas, mas também muitas inovações, resultantes das transformações inevitáveis por que passa tudo que é humano, e, como diz o lingüista e professor da Universidade de Brasília, Marcos Bagno, “nada mais humano do que a língua” .
É importante dizer que a lingüística não veio para tomar o lugar da gramática normativa, pois se sabe que a gramática tem um papel fundamental na história da humanidade, mas ela será sempre secundária, como sempre foi, afinal a língua falada surgiu muito antes da língua escrita e isso deve ser considerado e sempre lembrado .Nosso objetivo aqui é justamente apresentar essa nova ciência a você, às pessoas em geral, afinal ela é pouquíssimo divulgada pela mídia.  Precisamos saber que, além da gramática normativa, existe uma ciência específica da linguagem e que explica as variações existentes na fala.
Se você tiver mais interesse nessa nova ciência, a lingüística, ou em qualquer outro assunto relacionado à língua, entre em contato conosco.

Fonte: Português ou Brasileiro: um convite à pesquisa – Marcos Bagno

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Erro? Podemos dizer que alguém fala errado e por quê?

Você já pensou na força que as palavras erro e errado possuem? O que pensa uma criança na escola que ouve o professor repreendê-la por falar “errado”? Será que realmente está errado?
Na verdade, a Gramática Tradicional gerou uma noção folclórica de erro.  Para a gramática e para muitos gramáticos, tudo o que não estiver de acordo com a gramática normativa é errado .
É interessante nos lembrarmos de um exemplo que o lingüista Marcos Bagno usa e que cabe muito bem para explicar a noção de erro . Ele compara a gramática tradicional a um sapatinho de cristal.  O que muitos gramáticos querem é que as pessoas usem o sapatinho de cristal para tudo: correr, ir ao mercado, ir à praia e para todo o resto . O mesmo se aplica à gramática, o que se quer é que as pessoas falem todo o tempo de acordo com suas regras e normas, regras essas que muitas vezes não cabem para o local e a situação em que estamos . Pois bem, o grande problema com essa noção ultrapassada de erro é que, como os estudos lingüísticos modernos têm revelado, simplesmente não existe erro em língua . Existem, sim, formas de uso da língua diferentes que divergem da tradição gramatical.
Sendo assim, a criança que o professor repreende por falar errado, na verdade só está usando uma variedade lingüística diferente da variedade padrão . Naturalmente não estamos querendo dizer que não se deva ensinar o padrão da língua . Queremos apenas enfatizar que a linguagem da criança precisa ser respeitada e que, na escola, ela tenha acesso à norma padrão de maneira crítica.

Fonte: Português ou Brasileiro: um convite à pesquisa – Marcos Bagno

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